É fim de tarde e chove, mas meu coração está em paz há dias. Mesmo as horas com pilhas fracas, com os beijos que não te alcançam e com o porre que me dá essa saudade. Eu ainda tenho no corpo o sabor do esmalte café que suas unhas derramaram. E guardo os trejeitos de quando me tateava, olhar calmo, um sorriso que só caberia no meu rosto.
Há quem diga que o amor é egoísta. Pois que seja. Não podemos nos dar ao desgaste de escancarar as janelas dos nossos corações a quem não alcança suas grades. Quem é que sabe do paradeiro do amor afinal? Para os ouvidos, ele é apenas mentira. Nosso amor existe coração a dentro. Sorri aquele que presencia. Não por ser bonito, mas por ser real.
E o seu amor me leva aos extremos, as mesmas asas que me elevam ao céu queimam quando toco no inferno do desejo que o meu corpo tem pelo seu. Quando fecha seus olhos brandos pra me beijar, apaga entre as pálpebras toda a delicadeza e o medo de violarmos nossos próprios corpos sobre um edredom branco, num quarto escondido onde nem mesmo as pessoas sabem o que procuram. Mas nós sabemos. Você sangrou comigo deitada em um cemitério de flores, os gritos ecoavam nos corredores e elevadores, cada degrau que foi marcado com promessas sentiu o peso do nosso peito que ardeu com o suor que escorria boca à baixo. Eu me entreguei como um pescador encantado por uma sereia.
Desculpe-me se tardo a chegar, mas é sempre difícil sair do porão de meus pesadelos. Sabe que preciso me aconchegar na concha de seu corpo para que nossos filhos possam morar em meu sobrenome. O quarto estará aquecido, da janela verei ainda mais o infinito, pois as cortinas estarão abertas, e o cenário pronto para que meus pés namorem os seus. Eu sinto que me espera. No canto do Alphaville ou no saguão do aeroporto, sob estrelas ou sob meu corpo, apertando a saudade ou me apertando na parede.
Nessa época do ano, as bailarinas no cinema recebem visitas, os Ipês despejam seus inquilinos na avenida central e se explodem em flores, como quem atinge a um orgasmo guardado por meses. E somos como os Ipês, pouco é visto da beleza que escondemos. Ultrapassamos as dilatações, não há mais quem possa nos prever.
Uma quinta-feira com número ímpar, e um suspiro dos mares para que sua boca tenha o gosto salgado. Eu sinto que me espera.
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